SEGURANÇA VEICULAR

Papo de roda

Boris Feldman

Publicação: 25/10/2014 04:00

http://www.blogdoboris.com.br/post/2014/10/27/Papo-de-roda-Por-fora-bela-viola-Por-dentro-pao-bolorento.aspx#.VIhFnjHF8hM

Por fora, bela viola...

No Brasil, pelo menos 15% dos automóveis já passaram por reparos estruturais, 70% deles realizados fora do padrão das fábricas.

Você provavelmente não sabe (nem quer saber) o que vem a ser a longarina de um automóvel. Mas ela pode botá-lo numa cadeira de rodas pela irresponsabilidade de algumas oficinas, que fazem seu reparo sem obedecer os padrões técnicos estabelecidos pelo fabricante.

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Longarina é uma espécie de perfil de aço responsável pela resistência estrutural do carro. A carroceria se apoia basicamente sobre duas longarinas longitudinais (que vão da frente até a traseira) e algumas transversais.

Quando, num acidente, a carroceria sofre um forte impacto, a longarina pode se deformar e a recomendação do fabricante é removê-la integralmente e substituí-la por outra nova. Uma operação complexa tecnicamente, com especificações de local de corte e solda.

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Mas tem outra solução mais simples e barata: aquecer a longarina onde se deformou e forçá-la de volta. O reparo fica aparentemente perfeito, mas a o aço perde a resistência original, comprometendo a solidez da carroceria. Seus ocupantes poderiam sofrer ferimentos graves ou fatais se o carro se envolver num outro acidente de proporções.

“Conversa fiada”, diz o mecânico que fez o reparo. “É a fábrica querendo faturar às custas do cliente”, diz o dono da oficina.
Uma consultoria inglesa de segurança veicular decidiu fazer um teste tipo tira-teima para avaliar as consequências e provocou uma colisão entre dois automóveis (Focus). O primeiro teve a longarina substituída, o segundo exibia sinais de solda e reparo malfeito na estrutura.

O Focus reparado corretamente se deformou de modo a preservar seus ocupantes. O outro teve uma deformação muito maior, as rodas dianteiras se deslocaram para trás e houve intrusão de nove centímetros do painel e pedais no interior da cabine. Diferença suficiente para os passageiros do primeiro carro saírem andando e mandar os do segundo para o hospital. As longarinas são mencionadas como exemplo, mas outros componentes da carroceria são igualmente importantes: colunas verticais (pilares) e travessas de reforço, por exemplo, protegem os passageiros no caso de um impacto lateral.

O Centro de Experimentação e Segurança Viária (Cesvi) realizou testes semelhantes e chegou aos mesmos resultados. Dizem as estatísticas que, no Brasil, pelo menos 15% dos automóveis já passaram por reparos estruturais, 70% deles realizados fora do padrão das fábricas.
Como não existe fiscalização nem presença obrigatória de engenheiro nas oficinas mecânicas, vão para o ralo os milhões de dólares investidos pelas fábricas na segurança passiva dos automóveis. Por pura incompetência ou para reduzir custos, às vezes por exigência de seguradoras.

No país do salve-se quem puder, não há registro no Detran de carros acidentados e quase destruídos. Leiloados ou não, eles são reparados numa verdadeira operação “lambança” e expostos depois com ótima aparência, pintura brilhando e mecânica perfeita.

Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento... ou "reparo mal feito"...